AS BOLINHAS DO ESCRITOR



DEFINIÇÃO DE “PELOTIQUEIRO”

— por Rogério Prego*


“[Na minha infância] vivi entre livros, com avô, pai, tio e primos escrevendo. O melhor de todos eles, Godofredo Rangel, me ensinaria mais tarde, alguns truques literários, enquanto meu pai me obrigava a ler os clássicos— Murilo Rubião.


Pelotiqueiro vem do substantivo pelotica (bolinha), que por sua vez deriva de Péla (latim. Pila) — bola feita especialmente de borracha. No sentido figurado, quer dizer: joguete, ludíbrio. Pelotiqueiro é aquele que faz exercício de destreza de mãos ou de prestigitação com bolinhas em praças públicas, feiras ou no circo. Ao falar em feiras e circo que lembra tendas, seria fácil ligar Pelotiqueiro com cigano e, por conseguinte, à Bola de Cristal. Mas Prestigitação é o mesmo que ilusionismo. O ilusionista que, pela ligeireza dos movimentos das mãos, faz deslocar ou desaparecer objetos sem que o espectador perceba. E no sentido preconceituoso, quer dizer: “homem de opiniões versáteis, que não merece confiança nem consideração”. Ora, essa é a mesma figuração para Saltimbancoo charlatão de feira; o Arlequim de cambalhotas, gestos grotescos, possuidor de cores variadas.


Na simbologia do tarô, por exemplo, a mão esquerda do Pelotiqueiro está erguida atraindo a força do alto e, através da união da sua vontade e da sua capacidade criativa, faz com que as coisas se manifestem através da mão direita que está apontando para baixo — no tarô Visconti Sforza (séc. XV), há uma pena na mão apontada para baixo, dando a impressão que o pelotiqueiro está em posição de escrita —, esse duplo simbolismo sugere que todas as coisas derivam do alto, para criar todas as coisas sobre a terra — nada mais que, a combinação do consciente com o inconsciente! O Pelotiqueiro significa originalidade e criatividade. Habilidade para utilizar as próprias capacidades a fim de realizar uma tarefa.

“Se tomardes a primeira carta do tarô e a observardes mais atentamente, não tardareis a ver que a forma do Pelotiqueiro [...] corresponde, em todos os pontos, à letra Aleph”. O Aleph exprime o homem, como unidade coletiva, princípio-mestre e dominador da terra, o homem, ou microcosmo, é a unidade e princípio em todos os mundos. “O homem com uma das mãos vai procurar Deus no céu e a outra mergulha nos ínferos para fazer o demônio subir até ele e reúne, no humano, o divino e o diabólico... [Esta imagem] nos mostra o papel de mediador universal” — Papus, Tarô dos Boêmios, pp. 125/26.

Nessa analogia, os truques literários que o escritor aprende para transformar a palavra em ícone, “como se houvesse uma troca constante de uma matéria espiritual compreendendo coisas e homens”, é o que nos dá (me repetindo) a impressão que só por meio da linguagem é possível à criação de mundos, como bem fizeram os precursores do Realismo Fantástico no Brasil: José J. Veiga e Murilo Rubião. Deste modo, as bolinhas do escritor são as palavras, que com destreza nas mãos, ou melhor, ligando seu cérebro aos dedos, batuca-as no teclado do seu computador e assim vai nascendo histórias e estórias, conforme sua destreza! Mas, há escritores fanfarrões, ou mesmo prepotentes que se intitulam magos! Estes possuem duas bolinhas: Fantasia Barata e Autoajuda. Quer dizer: não possuem a habilidade com a “matéria espiritual” compreendendo homens e coisas!

Eu, Rogério Prego, não acredito em literatura de puro entretenimento. Eu acredito que o leitor não busca apenas isto, acredito que ele busca se identificar com a história contida no livro. E o mesmo ocorre com o escritor, porque ele possui um passado, onde encontra fatores que o diversifica da sociedade onde nasceu; o antagonismo com os costumes do seu meio o faz buscar sociedades longínquas ou imaginadas; busca as relações que mantêm entre si homens concretos, porque nas sociedades captamos mais do que ideias ou regras; captamos homens, grupos e comportamentos.

Toda manifestação externa – por meio de palavras – tem algo de ilusório. Segundo o crítico francês, Roland Barthes, “o escritor não é alguém a quem nos comparamos, mas com quem podemos nos identificar”. Para Barthes, o escritor é aquele que conta uma “mentira”, tão bem contada que tudo parece real! Para fazer isso ele deve estudar e pesquisar bastante, pensar e moer os pensamentos, fazer malabarismos com os diferentes instrumentos de comunicação para não se ver sob uma luz duvidosa!

“Enquanto o jornalista se agarra ao fato real, sem afastar-se da sua essência, o escritor procede de maneira inversa, porque ele apreende nas coisas um sentido que escapa aos outros” — Murilo Rubião.



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*Rogério Prego têm dois romances publicados: PRÍNCIPE DOS LOBOS e LOTERIA DA BABILÔNIA. E um livro de contos de horror intitulado: MEU SAGRADO REINO DA ESCURIDÃO.

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