VAMPIROS: Anne Rice e Bram Stoker, por Rogério Prego.

“Seja bem vindo à minha casa. Entre à vontade, saia são e salvo e deixe aqui um pouco de felicidade que traz!” — Conde Drácula, por Bram Stoker.

Parafraseando o vampiro: Seja bem vindo ao nosso blog. Entre e leia à vontade, mas antes de sair nos felicite com o seu comentário! — O Pelotiqueiro agradece.



Antes de partir para uma nova aventura de escrita, sempre leio bastante, principalmente os clássicos do tema em que pretendo me aventurar. Bom, o tema não é nenhum mistério, julgando pelo título e epígrafe, se trata dos vampiros de Anne Rice e Bram Stoker. Li e reli “Entrevista com o vampiro” de Anne Rice, tradução de Clarice Lispector, e “Drácula” de Bram Stoker — sei que muita gente pode discordar na escolha, mas pra mim estes são os dois livros cânones da literatura vampiresca.

Não pretendo fazer uma analise detalhada, ou uma resenha super fodástica cheia de termos e blábláblá aqui, o que acho muito desnecessário e maçante fora do ambiente acadêmico (deixem a dissertação para a banca examinar!). O que pretendo é simples e bem direto ao ponto: minha impressão de leitura, onde percebi encontros e desencontros entre a escrita de Anne Rice e Bram Stoker.

Estes encontros e desencontros entre os escritores, no que percebi, se configuram na estética que Anne Rice buscou para tornar seus vampiros Louis, Lestat e Armand, mais reais do que o consagrado e eterno Drácula de Stoker. Enquanto Drácula tem muito menos haver com o Conde Vlad, bebe de seu mito, mas se parece muito mais com Elizabeth Bathory, como se Stoker tivesse lhe dado contornos masculinos, transformando-a em Conde Vlad.

Não só contornos masculinos, mas lupinos! — é um lobo demoníaco que encarna o selvagem Leste Europeu do século 19. Lobo que ingleses, com a ajuda de um cientista alemão, têm o dever moral e higiênico de exterminar. Tal demônio, ainda pode se transformar em um morcego e se alimentar de sangue humano, o fluído corporal tão apreciado por Elizabeth Bathory — a mulher de beleza eterna, a mulher de desejos macabros!

Vamos começar pelos desencontros então...

“Vou cortar-lhe a cabeça e encher sua boca de alho e atravessar-lhe o corpo com um espeto” — Van Helsing em “Drácula”.

“Isto é uma idiotice, como dizem hoje”. — Vampiro Louis em “Entrevista com o Vampiro”.

Ao ler primeiro o livro de Stoker e depois o da Anne Rice, esta foi minha primeira impressão: “Bom, parece que há um diálogo entre os dois” — para minha surpresa e deleite. Mas, este diálogo de Anne Rice com o mitológico Bram Stoker, se inicia como uma afronta levada na brincadeira pela autora, claro, ela quer trazer o mito do vampiro para sua época, bem diferente da mentalidade do século 19. Como disse supra: Anne Rice buscou tornar seus vampiros mais reais do que o famigerado Drácula. Nada mais óbvio e colhido no senso comum de sua época, década de 70 do século 20, é dizer que o vampiro clássico é uma idiotice.

Segundo o personagem Van Helsing, superego de Stoker, o vampiro pode, dentro de certas limitações, aparecer à vontade (inclusive durante o dia? Não sei), sob qualquer forma que dispõe e pode até controlar os elementos da natureza e dar ordens aos animais, de preferência o lobo e o morcego, e ainda pode crescer ficar pequeno e mudar sua forma humana — de preferência, rejuvenescer.  Além disso, o vampiro não produz sombra, nem se reflete no espelho, mas pode surgir sob a forma de nevoeiro, pode se afilar e passar por gretas e vãos. As coisas que o afligem: o alho, um ramo de mata-lobo, uma bala abençoada, e principalmente o crucifixo!

“Oh, o boato das cruzes! — o vampiro Louis riu. — refere-se a termos medo de cruzes? Absurdo. Posso olhar o que quiser”.

Virar vapor, ou se afilar e passar por qualquer fresta ou fechadura — como Stoker escreveu —, se transformar em morcegos ou lobos, segundo Anne Rice: Isto é uma idiotice. As estacas? Burrice! Não há nenhum poder mágico. Bom, eu pensei como simples leitor: E ser um vampiro já não é uma coisa mágica? Ora, se combate mágica com mágica, não? Segundo Anne Rice, eu sou um idiota! Vampiros não alongam os membros do corpo, apenas se movimentam rápido demais produzindo uma ilusão de ótica a quem os observa. Quer dizer: a existência de um vampiro é real e facilmente comprovável, não é mágica é ilusionismo.

Portanto, os vampiros de Anne Rice produzem sombra, refletem no espelho, não temem as cruzes, porém não possuem poder sobre os elementos da natureza, não se transformam em outros animais, muito menos em lobos, pois seus vampiros são gatinhos selvagens muito ariscos — o que produz imagens belíssimas na imaginação do leitor! Seus vampiros são exuberantes, fascinantes e apaixonantes! Não é o lobo demoníaco que encarna o selvagem Leste Europeu do século 19 que, pelo dever moral e higiênico, devem ser exterminados. Claro, no Brasil se preferem os cães aos gatos, então aqui já estariam no sal!

No final do século 19, Bram Stoker estava escrevendo um romance sobre um vampiro, e pretendia intitulá-lo como “The Undead”, mas não estava satisfeito. Seu personagem tema não tinha um nome convincente, muito menos o título que escolheu para o livro. Então #PartiuMuseuBritânico para pesquisar textos médicos da Idade Média e, se deparou com panfletos do século 15, todos se referindo à tiranos sanguinários do Leste Europeu, e todos tinham o costume de beber o sangue de seus inimigos! Mas, dentre eles um saltou-lhe aos olhos, Vlad Drácula “Tepes”, por quê? Sua família pertencia há uma ordem religiosa chamada Draculea (O Dragão), que combatia os infiéis turco-otomanos que ameaçavam as fronteiras da cristandade.

Como sugeri, Van Helsing é o superego de Bram Stoker, como este, Van Helsing passou uma noite no Museu Britânico consultando a “experiência e conhecimentos dos antigos e de todos que tem estudado o poder dos Não-Mortos”, debruçou sobre os textos dos médicos medievais, textos os quais, para a mentalidade de finais do século 19, não passavam de crendices! Bram Stoker se insere na trama para criar uma atmosfera realística sobre sua criação, trazendo estas leituras que obteve no museu. Quero dizer com tudo isso que Bram Stoker foi o primeiro a organizar os mitos do vampiro em um corpo, o Drácula. E todos que vieram depois dele, inclusive Anne Rice, já sabiam de onde partir.

E para dar ainda mais realismo a sua obra (ou por não conhecer pessoalmente os prazeres que a velha Londres poderia proporcionar a uma criatura noturna) é contada sob a forma de documentos dos personagens. Com tal artimanha, o Drácula de Stoker se identificaria, à época, com todas as outras lendas da velha Londres, como ele mesmo referencia: “O Horror de Kensigton”, ou “A Mulher de Preto”. E assim carimbava seus próprios mitos: “O Horror de Hampstead” e a “Mulher de Branco”.



A intenção é o realismo, não a mágica, é suscitar o medo e a curiosidade que as manchetes de jornais produziam na época. Quer dizer, foi ocultando seu personagem, quando este se encontra em Londres, sendo apenas mencionado, sugerido ou visto de relance andando de carruagem ou passeando pela rua, foi o bastante para torná-lo o mais real possível — são os relatos de Harker, Mina e Reinfild que nos revela plenamente o poder de Drácula.

Voltando às comparações, é bom ressaltar que enquanto os vampiros na obra de Stoker são mortos com estacas, enfiando-lhe alho na boca e por fim cortando-lhe a cabeça. Na obra de Anne Rice os vampiros só podem ser mortos com fogo! — uma clara referência ao apocalipse bíblico, perpetuado no livro “O Grande Conflito” de Ellen G. White, porque Deus purificará a terra com fogo, o que concorda com a passagem sobre João Batista: as gerações futuras não serão batizadas com a água (como os antigos tiveram o grande dilúvio), mas com o FOGO.

Portanto, Stoker, assim como Anne Rice almejam o mesmo: que seus vampiros sejam tão reais quanto uma manchete de jornal ou uma entrevista gravada, porém em épocas diferentes, mas com o mesmo intuito: vender milhares de livros! E Anne Rice vai mais além, quer que seus personagens sejam adorados como os santos da Igreja, enquanto ela é a sacerdotisa encarregada de adorá-los todos os dias. Mas, ao contrário de Stoker, Rice nos coloca em contato direto com a velha Nova Orleans e nos revela os prazeres que esta cidade poderia proporcionar as criaturas noturnas, diria mesmo: criaturas byronianas!

A vida de Louis, Lestat e Cláudia na exuberante Nova Orleans, me lembrou, bastante, o livro “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde, publicado pela primeira vez em 1891. O que fica mais evidente quando Louis e Cláudia se encontram em Paris. O luxo, os prazeres languidos, e o apreço pelo belo... Os perfumes, as cores das flores, o amor pela beleza do homem delicado, retratado fielmente na pintura, ainda mais exuberante que Dorian Gray — a beleza que se encontra na arte é eterna, mas não representa a vida, na vida há envelhecimento, há decadência. Talvez, o espelho que não reflete Drácula, seja como o quadro que Dorian Gray jamais pode olhar, porque este revelaria o grande embuste que é sua beleza e imortalidade! E a sombra projetada é a prova inconteste de sua realidade física sujeita a decadência!

Toda essa exuberância Wilde byroniana provém dos vivos, e o “sangue é a vida”. Os vampiros vivem à sombra dos mortais (os vivos) e precisam se alimentar de seu sangue para sobreviverem, quanto a isso, os dois autores não discordam, são complementares. Como o Dr. Seward, em “Drácula”, classifica Reinfild: um “maníaco zoófago (comedor de vida). O que ele deseja é absorver tantas vidas quanto seja possível”. O vampiro fica cada vez mais forte quanto mais vidas consumir.

Reinfild diz: “Tentei matar o Dr. Seward a fim de aumentar minhas forças vitais pela assimilação em meu corpo da sua vida, através do sangue, baseando-me na frase das escrituras (Bíblia): “Pois o sangue é a vida”.” Enquanto Louis comemora melancolicamente depois de chupar o sangue de um artista parisiense: “Sou mortal de novo. estou vivo. Minhas mãos coradas, minha pele luxuosamente quente”.

Mas para Anne Rice, isso não basta, com todo o seu senso estético retirado de “O Retrato de Dorian Gray” de Oscar Wilde, e “Don Juan” de Lorde Byron — aliás, lembremos que os poemas de Byron refletem suas próprias convicções e experiências, oscilando entre a violência e a suavidade, mostrando-se frequentemente exótico, além disso, Byron insistia que as pessoas devem ter a liberdade para escolher o curso de suas vidas! Uma referência em tanto para criação do vampiro Louis, não? —, como eu já havia dito, os vampiros de Anne Rice são gatinhos selvagens e muito exóticos.

Através de Louis, sabemos que um vampiro fica quieto como um gato, fascinado pelo pulsar das cores, hipnotizado pelo tremor da carne, parecendo que seu corpo se transformava em sua mente. Com audição aguçada, cada som é um deleite. Por isso pode compreender melhor os sentimentos dos mortais. Até mesmo Drácula, quando surpreendido pela armadilha feita por Helsing e Cia. se esquivou e fugiu como um gato, pulando a cerca nos fundos da casa.



“Lestat não confiava em ninguém. Era um gato, dono de seus atos, um predador solitário” e com movimentos felinos deslizava pelas calçadas. Porém, Louis acredita que Lestat não possui estes poderes felinos, e começa a se achar superior — “sentia indiferença por ele. Não sentia desprezo por sua inferioridade. Somente avidez por uma experiência que deveria ser bela”. Como Byron, Louis quer tirar maior proveito das experiências, e decidir o curso de seus atos.

Esta relação entre vampiros, conflituosa, foi muito bem trabalhada por Anne Rice. Mas, timidamente por Bram Stoker, mas que nos revela seus laços. Segundo ele, quando se torna um Não-Morto, continua pelos anos afora acrescentando novas vítimas e se multiplicando, e assim o círculo vai se alargando. As vítimas que não são tornadas vampiros, servindo apenas como alimento sempre vão procurar o vampiro, pelo poder que ele exerce sobre eles — julgando pelas três concubinas de Drácula, essa relação escrava continua depois de tornado vampiro.

Quando Van Helsing organiza seus amigos para matar a vampira Lucy, ele emite o seguinte diagnóstico: “trata-se de uma dupla vida, foi mordida pelo vampiro, quando estava em transe, morreu em transe e em transe também é Não-Morta” — o mesmo acontece com Cláudia, foi mordida criança e como criança permanecerá como Não-Morta. “Mas quando deixa de ser Não-Morta; esta volta dos mortos comuns”, quer dizer, quando não é exterminado da forma certa? Ou é o caso dos vampiros zumbis que Louis e Cláudia encontram no Leste Europeu? Não sei, fica a dúvida.

Segundo Anne Rice, nem todos os vampiros estão preparados para imortalidade, querem que todas as características de suas vidas permaneçam imutáveis. Mas tudo muda exceto o vampiro. Em pouco tempo, com uma mente inflexível, esta imortalidade torna-se uma sentença a ser cumprida num asilo de vultos e formas inexoravelmente incompreensíveis e sem valor. Drácula passa 400 anos dessa forma, chega mesmo a envelhecer e, dessa forma pode ser sepultado e passar anos num sono profundo, enquanto definha. Então, ele precisa da alegria dos vivos para viver.

Armand, através de Louis, quer se salvar desse desespero que é a morte de um vampiro, o mesmo que Drácula busca em Jonathan Harker. Armand quer compreender Lestat de um modo que o revitalizará — mas para Rice, Louis representa para Armand algo muito mais durador do que ele pode encontrar em um mortal. Claro, Rice nos aliena em uma estória que nos remete à relação entre vampiros. Enquanto Stoker busca uma relação incompatível que é o vampiro e um mortal, pois para ele, o vampiro é um Não-Morto, não possui alegria, o prazer na vida, ele não suga apenas sangue, mas o prazer que o mortal encontra na vida. De certa forma, é isto que Armand perceberá ao longo de sua convivência com Louis. Isso torna o romance de Anne Rice apaixonante, Rice diz que Louis possui um contato com a vida humana de seu tempo e se transforma com ela por si, enquanto os outros não.

Armand diz que se tivesse encontrado um mortal com tal sensibilidade, esta dor, esta visão da vida, teria o transformado imediatamente em vampiro. Drácula encontra esse mortal, Jonathan Harker, um homem que ama as coisas simples da vida, que ama dedicadamente sua futura esposa Wilhelmina. Mas para Drácula, Harker é apenas a chave para o mundo moderno, não uma companhia. Ao contrário, Armand quer se contentar com a época, e acredita poder fazê-lo com Louis.

Bem, ao contrário do filme de Francis Ford Coppola, no romance de Bram Stoker, o vampiro é movido pelo apego e o egoísmo, quanto a isso, Anne Rice não parece discordar. Não existe nenhum sentimento de amor entre Drácula e Mina, esta é dedicada a Jonathan Harker, e a referida carta no filme de Coppola na verdade se refere à carta falsa onde o Drácula histórico jurava lealdade ao sultão turco, o que o levou a se refugiar em seu castelo, um local intransponível. O amor, a única história de amor que encontramos na obra de Stoker, existe entre Harker e Mina, mas por alguma razão, Coppola não achou interessante, decerto por sua simplicidade devota, exatamente o que Louis pensa ser a única coisa importante, a simplicidade.

Eu fico por aqui, mas o assunto não se esgotou neste texto, prometo uma continuação em breve. E não se esqueça, antes de sair nos felicite com o seu comentário! — O Pelotiqueiro agradece.


Bibliografia:

BRANCO, Arturo. Drácula e o Mito do Vampiro. In_ III Simpósio Internacional Cultura e Identidades. UFG, Goiânia, 2007.

RICE, Anne. Entrevista com o Vampiro. Tradução de Clarice Lispector. 10ª Ed. Editora Rocco, Rio de Janeiro, 1996.

STOKER, Bram. Drácula. Edição eBooksBrasil, 2002.

Comentários

  1. Gostei do texto e da comparação. Entretanto, não posso me aventurar a comentar a mesma, pois faz tempo que li as obras. O que posso dizer como RPgista é que gosto um pouco mais da monstruosidade do Drácula de Stoker. De Rice, gosto de ter retirado as fraquezas em relação ao alho e às cruzes. Rogério e Pollyanna, não sei se estão se aventurando no mundo das séries televisivas também, mas achei interessante a proposta do seriado Penny Dreadful, que casa em parte com o que foi colocado. A série entrelaça vários personagens de terror, justamente na Londres do século 19.
    À parte disso, gostei da ideia do Blog.
    Johnny

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    1. Valeu Johnny pela dica, vamos dar uma conferida nessa série, parece ser muito bacana! Obrigado pelo comentário. Ainda tenho mais alguns apontamentos sobre os respectivos autores, que em breve estaremos postando. Creio que ainda vamos buscar algumas coisas sobre o mito ainda mais longe, talvez uns 4mil anos, na Mesopotâmia! Enheduanna, Sargão, sei lá... Ainda tem coisa massa!
      Valeu véio!
      Rogério

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