NO MUNDO DOS HOMENS-LOBO... UM CORDEIRO!

*por Henrique Martins da Silva.

Príncipe dos Lobos apresenta uma narrativa real, chocante e perversa no que tange o mundo das relações humanas. A trama se desenvolve a partir das aventuras e devaneios do personagem Robinson, primeiramente quando criança e depois na fase adulta. Trata-se de um jovem que advindo de uma situação miserável e com vários problemas, inclusive familiares, aprende a queimar as chamadas “pedras mágicas” como forma de sucumbir o sofrimento e talvez preencher o vazio da própria alma, pelo menos por alguns intervalos de tempo. Não é fácil, Robinson tem uma vida muito conturbada, “vive entre lobos” e é atormentado por fantasmas que são seus próprios medos, limitações e tragédias. É o retrato de um personagem vazio praticando o individualismo no caminho das pedras.  

Por intermédio de um traficante e cafetão, conhecido por Draco, conhece e se apaixona por uma prostituta chamada Beatriz que o faz mudar drasticamente, abandonando o vício. Como a raposa, ela é perspicaz – sabe jogar – o influencia dizendo: “As pedras valem muito dinheiro e você as queima, seu estúpido” (p.88). As pedras são preciosas, o recado de Beatriz fora entendido por “Smigol”: PRECIOSO! Robinson aprendeu ainda na escola uma dança diferente, o Breakstyle que despertou a simpatia de Draco, salvando-o da morte e do abismo existencial. É quase paradoxal – “o cordeiro DANÇA entre lobos”.  

A famosa expressão: “O homem é o lobo do homem”, utilizada por Thomas Hobbes no século XVII pode ser tensionada neste romance. A figura do lobo pode representar muitas coisas e, por isso, é apresentada de forma muito ampla no livro surpreendendo o leitor. É como se a palavra lobo, fosse uma expressão psicanalítica para lidar com a ausência, os medos e todo o mal banalizado e repreendido. Robinson descobrira através de Draco, que os lobos são temidos, pois carregam o semblante das ruas. Todavia, desde a infância já era cercado por lobos que o dilaceravam juntamente com sua mãe, Edileuza.

Neste ambiente insalubre de relações, afundado nas drogas e vivendo nas ruas, restava a Robinson ter ainda um pouco de dignidade, dominar seus medos, traçar objetivos e cumprir a promessa que fez à mãe de dar-lhe uma vida melhor. O cordeiro tem que legislar no mundo dos lobos para ser príncipe, ou melhor, Príncipe Lobo. As pedras que antes eram queimadas passam a ser vendidas – torna-se um negócio lucrativo, capitalista. A ideia de possuir Beatriz o incentivou, estava disposto a enfrentar até mesmo Draco, quem o acolheu. O Príncipe Lobo deveria ser respeitado e temido, mas isso não o torna um vencedor. Pelo contrário, talvez seja sua própria ruína, pois o cordeiro pode até acreditar que é um lobo, porém não deixa de ser um cordeiro.

Robinson é o protagonista, entretanto, Beatriz toma a cena. Ela procura nele se libertar de Draco e fugir para a França, onde irá lucrar mais com a prostituição. Embora ele procure nela o depositório de seus sentimentos e alívio para sua alma atormentada. Ora, o cordeiro realmente gostava dela – talvez ela representasse sua redenção. Robinson quer viver como um príncipe ao lado de sua princesa-meretriz. Mas isso não é tão fácil por causa dos obstáculos que aparecem. As pedras não são suficientes para diminuir sua agonia, seus desejos não têm limites e suas atitudes não medem as consequências. Ele está sem controle, joga o jogo de Beatriz – ela o seduz e o engana. O cordeiro fica entre o céu e o inferno – os lobos estão à espreita.

Beatriz, sagazmente, ensina tudo o que Robinson tem que fazer para que possam ficar juntos. O Príncipe Lobo agora está pronto, começa a caçada. Para alcançar seus objetivos está disposto a matar quem estiver em seu caminho e de sua pretendida. O cordeiro não é mais o mesmo, torna-se determinado, toma aspectos de um lobo e quer mostrar que pode ser um deles, ou melhor, o príncipe deles.

O romance de Rogério Prego é uma denúncia social, mostra que “os lobos” não estão somente nas ruas, podem estar mais perto do que se imagina, até dentro de nossa família. Esses lobos estão por toda a parte e se atracam na disputa por poder ou espaço. É um livro que questiona e confronta a imagem do que está além do bem e do mal, transmitida principalmente pelos veículos de comunicação. Não há soluções imediatas, pois um problema leva a outro e, por conseguinte, em direção a uma raiz muito mais profunda do que se imagina.

Nesse sentido, o autor foi bastante feliz em seu propósito, uma vez que não nos apresenta respostas prontas, mas sim um campo de possibilidades para que o leitor indague e tire suas próprias conclusões. Afinal, toda a obra é uma grande crítica social e comportamental. É um tipo de realismo fantástico que faz o leitor refletir e ensimesmar-se, pois querendo ou não, alguma parte da obra irá lhe despertar uma identificação ou familiarização pessoal. É um romance que vale a pena conferir. Está acima das expectativas que possam ser despertadas neste prefácio. Real, Intrigante, Envolvente! Só lendo para saber o que acontece com Robinson nessa aventura dantesca no mundo dos homens-lobo.


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